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Arquitetura sustentável: a valorização da vida

Revista Estações / Outono 2021 - pagina(s) 09-13


Abril/2021


Arquitetura


AS POTENCIALIDADES DO LUGAR

Segundo a arquiteta Cristiane Marques, especializada em planejamento de imóveis rurais, “o conceito de sustentabilidade passa por entender o lugar onde se pretende construir; a biodiversidade local, o clima, a topografia e os recursos naturais para que a relação entre a natureza e as pessoas que vão viver ali seja de parceria e não de competição. Portanto, fazer uma leitura prévia de um terreno, antes mesmo de comprá-lo, é extremamente importante. Para Cristiane, temos que ter humildade para perceber que há todo um sistema local que nos antecede ali e que vai continuar presente de alguma forma. Observar e estudar todos os aspectos que um terreno possui são atitudes essenciais para que a casa não fique desconectada do seu entorno e para que a vida ali presente possa ser preservada.

Cada espaço tem características próprias e mesmo aquele aspecto que pode parecer muito desfavorável pode trazer benefícios, a depender de como se trata a questão. Se há muita água no local, por exemplo, e se essa água desce com grande velocidade é possível criar um novo caminho por onde ela serpenteie e desça mais devagar. Se o terreno é um grande pasto, sem árvores, o ideal é reflorestar parte dele para criar áreas sombreadas que, entre outros benefícios, ajudarão a manter a umidade do ar. Se, ao contrário, encontramos uma floresta, basta abrir uma clareira para que a casa tenha incidência de sol. Por ser uma região montanhosa, os terrenos em Petrópolis em geral têm muitos níveis. Para o arquiteto Alexandre Sodré, do Studio da Mata, “é preciso analisar o espaço e tentar fazer a menor interferência possível evitando a movimentação desnecessária de terra.” Alexandre destaca outro aspecto importante que é perceber onde nasce e se põe o sol para que a casa fique bem posicionada, sem muitas áreas de sombra, o que evita a necessidade de uso de luz artificial durante o dia.

Malu Infante e Diego Cursio, sócios na Ingo, arquitetura e design, afirmam que “para minimizar os impactos ambientais de uma obra em regiões rurais é importante também considerar a legislação sobre o afastamento mínimo de leitos de rios e nascentes, a inclinação máxima para construir, a área de reserva legal e a estabilização de encostas.” Recentemente eles fizeram um projeto em Itaipava em que conseguiram explorar a captação da água da chuva no telhado para uso no jardim e na horta, um recurso simples e barato que economiza água tratada. Sentir o local e ter por hábito observar a natureza, como vivem os animais, como se alimentam, como se protegem, como se comporta a vegetação, de onde vem a água potável, que tipo de solo está ali disponível, que desenhos naturais o terreno oferece fará toda a diferença na concepção maior do projeto construtivo. Segundo o ar quiteto Carlos Parada, que atua em Petrópolis há mais de 30 anos, “a casa deve parecer ter pousado no terreno”. Antes de projetar e construir, ele visita o local diversas vezes para entender suas características.

A NATUREZA É ECONÔMICA

O outono é o melhor exemplo disso. Nessa estação, as árvores desprendem suas folhas para economizar energia, pois o inverno está logo ali com menos água disponível e com temperaturas mais baixas. É o ciclo da natureza. Da mesma forma, utilizarmos os recursos naturais que são basicamente água, terra e ar de modo eficiente é uma atitude economicamente sustentável. Alexandre Sodré enfatiza que observar a circulação de ar do local é fundamental para que a casa seja termicamente agradável, evitando muitas vezes o uso de aparelhos de ar condicionado ou aquecedores elétricos. Outras questões econômicas aparecem quando vemos as coisas sob a ótica da sustentabilidade. Para Cristiane Marques, a reutilização de materiais de demolição – tais como pisos de antigas fazendas ou mesmo uma árvore que caiu no terreno e que pode se transformar num banco de jardim – é uma ideia interessante para construções rurais: “quando a gente olha para essa materialidade, percebe que ali tem um valor que atravessa o tempo.”

Malu Infante, designer de interiores, acredita que “usando a criatividade, quase todos os materiais podem ser reciclados, readaptados ou repaginados, gerando economia, evitando o desperdício e ainda criando espaços diferenciados.

A criatividade humana unida ao senso estético tem produzido belas peças a partir de materiais que poderiam ter ido para o lixo, tais como ferramentas antigas, grades com traços de ferrugem, madeiras carcomidas pelo tempo; enfim, recursos que podem e devem ser revistos e não descartados. Ao construir, todos os arquitetos foram unânimes em considerar a importância de adquirir materiais de construção do próprio lugar, incentivando o comércio local e os produtores e artesãos próximos. Trazer materiais de lugares distantes provoca ainda mais poluição e custos altos de frete. A permacultura é um sistema que procura aliar os recursos naturais e seus possíveis usos. O tema é amplo e merece estudo aprofundado, mas o que ele nos traz de imediato é um olhar mais atento para o que a natureza local oferece de graça. Exemplo disso é o bambu, uma planta que muitas vezes existe em abundância nos terrenos daqui e que pode ser utilizada até mesmo de forma estrutural no lugar do ferro. Para Cristiane, outro benefício da permacultura é a sintropia, que é você ter o menor gasto possível de energia.“Se você vai plantar uma horta, não vaiplantá-la longe. Quer ter um jardim comestível? Faz isso perto de casa, ondepode observar, regar, colher.” Os jardinscomestíveis nada mais são do que o consórcio entre diferentes plantas: leguminosas, frutíferas e outras, todas atuandoem parceria e proporcionando bem-estar.

CASAS DE MADEIRA

O uso da madeira na construção de casas sempre foi muito bem-vindo por seus aspectos práticos e estéticos. No entanto, nos últimos trinta anos, por conta da preocupação com o desmatamento, o uso de madeiras de lei foi substituído gradativamente por madeiras de reflorestamento. Victor Whyte Ellery, proprietário da Eukaliptus, trabalha com dois tipos de madeira tratada: o eucalipto e o pinus elliotti. Victor atuou por muitos anos na indústria moveleira, mas, preocupado com a questão ecológica, anteviu que, no futuro, as madeiras de reflorestamento seriam a solução para evitar o fim de grandes áreas de florestas. Segundo ele: “O desmatamento é realmente uma perda muito grande porque uma floresta adulta leva centenas de anos para amadurecer. Uma castanheira, por exemplo, atinge até 100m de altura. Já as mudas dela, produzidas em série, não passam de 34 a 40 metros.” Uma das fragilidades da madeira que seria a possibilidade de ser atingida por cupins, por exemplo, fica bem resolvida com o tratamento químico aplicado a elas no sistema de autoclave. Com madeiras imunizadas, não há o que temer na construção civil.

Alexandre Sodré é um dos adeptos das construções em madeira: “comecei a me interessar pelo uso de toras por serem mais naturais e porque vêm de um processo de reflorestamento. Então, não é uma madeira retirada de matas nativas. É uma mata que é plantada para esse uso e o eucalipto é uma madeira super dura, resistente e com propriedades adequadas para a construção”. Alexandre se dedicou a conhecer e aplicar os métodos construtivos das chamadas Log Houses ou casas de toras de madeira, feitas com eucalipto, muito utilizadas nos EUA e no Canadá. Para o clima de Petrópolis, esse tipo de construção é bastante adequado por promover conforto térmico e um visual orgânico que se harmoniza bem com a natureza local.

Para Victor, a casa de madeira ecológica é uma tendência mundial. Nos EUA, 90% das casas são de madeira de reflorestamento. Existem diversas espécies de eucaliptos, mas alguns são mais apropriados para a finalidade construtiva, outros para construção de mobiliário para jardins e praças tais como bancos, mesas, espreguiçadeiras, balanços, escorregas e gangorras. A criatividade para definir os possíveis usos da madeira não tem limite.

ENERGIA QUE VEM DO SOL

Um projeto arquitetônico sustentável precisa tirar proveito da energia que vem de diversas formas: da água, do vento, do sol. A energia solar, por exemplo, serve não só para prover energia elétrica, mas pode ser utilizada para o aquecimento da água e até de ambientes.

O sistema que gera energia elétrica é o fotovoltaico e se subdivide em dois tipos: on grid e off grid. O sistema on grid é o mais usual, pois está conectado à rede elétrica pública, ao contrário do sistema off grid, que funciona de forma isolada e independente. Cada um tem uma funcionalidade. O sistema fotovoltaico trabalha com placas solares que captam a energia do sol e geram eletricidade. O sistema on grid é mais adequado a lugares que dispõem de energia elétrica da concessionária. Toda a energia que a casa não utiliza volta para a rede elétrica e gera crédito para o proprietário do imóvel. No sistema off grid, são necessárias baterias estacionárias para armazenar a energia produzida pelos painéis solares. O off grid é mais adequado a casas em lugares remotos onde não há fornecimento de energia elétrica.

Em Petrópolis, a ACR é a empresa mais consolidada nesta área. Segundo seu proprietário, o arquiteto Ado Leal, o sistema fotovoltaico tem inúmeros benefícios, pois não agride o meio ambiente, produzindo uma energia limpa, livre de emissão de CO2. Além disso, é um investimento que valoriza o imóvel, tem baixíssimo custo de manutenção e, principalmente, gera energia de boa qualidade e sob medida para as moradias. No caso do sistema on grid, o projeto é feito inicialmente levando-se em conta o consumo anual da casa. Em seguida, é formalizado e submetido à aprovação da concessionária. Com o sistema instalado, o tempo médio de retorno do investimento é de cerca de três anos, mas a economia proporcionada pela natureza já pode ser percebida de imediato na conta de luz.

TELHADOS VERDES: NOVAS POSSIBILIDADES DE BEM-ESTAR

De mãos dadas com soluções sustentáveis na arquitetura, os telhados verdes têm sido uma opção muito interessante quando se trata de aproveitar um espaço que normalmente ficaria vazio e sem vida, como a parte externa do teto de uma garagem, por exemplo. Segundo a paisagista Rita Sodré, do Studio da
Mata, quando a arquitetura se une a um bom projeto paisagístico, os moradores só têm a ganhar

Os telhados verdes tiveram origem na Babilônia, onde foram chamados de jardins suspensos. Hoje em dia, há técnicas específicas para transformar uma simples laje de concreto num lugar paradisíaco e que proporciona experiências sensoriais diárias às pessoas. Rita se especializou nesses jardins fantásticos e sua proposta é criar espaços sustentáveis, com plantas nativas e que não demandem muita manutenção por já estarem aclimatadas. Segundo ela, um telhado verde favorece a biodiversidade: passarinhos e outros animais de pequeno porte são seus visitantes habituais. Eles também podem ter plantas comestíveis, hortaliças ou, simplesmente, flores! A escolha é sua.

Segundo Rita, “eles vão te ensinando, mostrando do que precisam. É um aprendizado constante.” São verdadeiros oásis, espaços que são conquistados e que servem de interação com a natureza. Uma de suas vantagens é que eles reduzem a velocidade com que a água chega na rede pluvial. E eles devem ser adequados a cada localidade e seu clima. “Em Secretário, fiz um telhado verde com espécies que não vão precisar tanto de água, que vão se sustentar com a água da chuva basicamente.” Mas se for uma horta, pode ter um sistema de irrigação por gotejamento para mantê-la úmida.

Para criar esses espaços, Rita usa uma manta geodrenante, o substrato e as plantas, mas é importante que a laje esteja corretamente impermeabilizada.

PISCINAS BIOLÓGICAS: SUA VIDA MERECE ESSE MERGULHO

A relação do ser humano com a água é antiga e forte. Antes de nascermos, passamos até 9 meses envoltos no líquido amniótico. Depois de adultos 60% do nosso corpo é composto de água e, por fim, a Terra tem 70% de sua superfície coberta com água. Isso possivelmente explica o fascínio que ela exerce sobre nós. Um mergulho numa piscina num dia quente é o que muitas vezes nos devolve uma sensação de alegria que só a água traz.

Há diversos tipos de piscinas e de tratamentos para que elas se mantenham atraentes e limpas. As piscinas convencionais são tratadas com produtos químicos e, principalmente, cloro, todos muito prejudiciais à saúde. Mas por volta do ano 2000 surgiu na Áustria uma novidade: as piscinas biológicas. Em Portugal elas ganharam logo muitos adeptos e logo se espalharam por outros países da Europa e na África do Sul.

Diferentes das piscinas naturais que precisam de um veio de água limpa constante circulando dentro dela, ou seja, um rio, as piscinas biológicas não precisam dessa troca de água. Mantêm a mesma água, mas a limpeza e filtragem é feita por microorganismos e plantas específicas que ficam num canteiro no mesmo espaço ou ao lado delas. As plantas são responsáveis por produzirem biomassa, através da fotossíntese, que será consumida pelos microorganismos. Estes, por sua vez, transformam a matéria orgânica em substâncias inorgânicas que são necessárias para o crescimento das plantas formando um ciclo de trocas de matéria e energia.

Aqui em Petrópolis, a Arquitetura Positiva é a empresa especializada na construção desse tipo de piscina que tem não só a função de proporcionar a experiência de contato com uma água sem químicos, mas também um aspecto ornamental que integra o espelho d’água com a natureza ao seu redor. Criada pelo arquiteto Jorge Fernando Gaiofato Pires, a empresa faz também lagos ornamentais. Segundo ele, “dependendo das plantas que são usadas como elementos filtrantes, a piscina biológica pode ter até benefícios medicinais. Em Israel tem piscinas biológicas em clínicas de recuperação com relatos de pessoas que estavam com paralisia e se recuperaram.

Segundo ele, as pessoas têm procurado mais por esta solução, ainda que inicialmente represente um custo inicial maior pois os benefícios a longo prazo são indiscutivelmente maiores. “A piscina química é uma água morta, esterilizada. A piscina biológica é uma água viva. Por essa razão, ela tem mais resistência de recuperação. Se você deixar uma piscina biológica parada por 15 dias, ainda assim ela vai voltar ao normal muito mais rápido do que a piscina química. Ela é autorregenerável, é viva!

SUSTENTABILIDADE HOJE E SEMPRE

Estamos vivendo um tempo diferente, sendo desafiados a mudar nossos hábitos e visão de mundo. É uma nova oportunidade que o universo está nos oferecendo. Uma mudança de consciência. Aprender a respeitar a natureza é, antes de mais nada, conquistar o autocuidado e o nosso amor próprio. Assim, honraremos nossa maior herança: a Terra

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